2010/03/26

Toinho Pescador: O Baixo São Francisco pede socorro

Em um estaleiro do Baixo, conversei com seu Toinho 
em fevereiro último. Uma entrevista histórica para mim
(foto Neno Canuto)






Gente, estou de volta ao espaço web depois de algum tempo fora do ar. Nos últimos meses meu trabalho tem sido intenso, como secretário adjunto de Estado do governo de Alagoas. Mas no final de fevereiro tirei uns dias de férias, e fui para meu tradional período sabático no velho e bom São Francisco. E terminei fazendo um monte de reortagenas bacanas, que posto a partir dessa primeira, com seu Toinho, o maior líder pescador da região. Vem mais coisas por aí, mas prestem atenção para esse alerta e seu Toinho, uma voz que se transformou em caixa de ressonância para o Brasil.

Numa dessas andanças pelo Baixo São Francisco conheci talvez o melhor de todos os personagens que entrevistei ao longo dos anos nessa região. Trata-se de Antonio Gomes dos Santos, o Toinho Pescador, líder nato da categoria, e reconhecido nacionalmente pelo seu trabalho em defesa do rio. Em 2007, ganhou o prêmio Muriqui, do Conselho Nacional da Biosfera da Mata Atlântica, outorgado a pessoas e entidades por suas atividades em defesa da biodiversidade e conhecimento científico da Mata Atlântica.

Seu Toinho é também presidente da Federação dos Pescadores de Alagoas e membro do Movimento Nacional dos Pescadores. Segundo Toinho, a maioria das espécies de peixe do São Francisco desapareceu. “Surubim, mandim, corvina, pira são peixes de piracema - e não tem mais piracema”. Os animais foram indo embora na medida em que se multiplicaram as plantações de cana-de-açúcar - e as queimadas.

Crítico ferrenho do que ele chama de “grandes projetos”, como o Programa de Aceleração do Crescimento e a transposição do São Francisco, ele não poupa ninguém. Nasceu no dia 12 de dezembro de 1931, e nos seus 78 anos de vida, começou a pescar aos 12 anos. Conversei com seu Toinho numa manhã ensolarada de fevereiro, em Penedo, num estaleiro local, onde o pessoal confeccionava uma canoa de madeira. Resistir é preciso. Veja a seguir a íntegra da entrevista.

Como o senhor vê hoje a realidade do rio São Francisco, em comparação ao que era no passado?


O momento hoje é difícil, porque deram licença para a transposição e o projeto está bem encaminhado. Mas é um projeto, para nós, sem futuro. De forma alguma vamos mudar nossa posição. Sempre vamos combater e quem ganhar vai ter que enfrentar esse movimento.


Mas já começou a transposição, o Exército está lá, abriram frentes de trabalho, os canos chegaram, e agora?

O maior exército é o povo. Se o povo se organizar, não tem exército que vença. Veja a Revolução de 64, ninguém mudava. Mas aconteceu que o povo se organizou, veio Tancredo Neves, veio a anistia a democratização. Entramos nesse processo de libertação, elegemos um presidente social. Mas o pescador avançou na sua luta. Nossa profissão estava atrelada à Marinha, hoje está lá, no artigo oitavo da Constituição, que garante nossa livre associação. Foi uma luta nossa. Foi um avanço, mas temos que combater esses outros problemas que estão chegando. Agente não precisa de grandes projetos, precisamos também dos pequenos projetos. Os pescadores não podem entrar na onda dos grandes projetos. Quem tem um Rio São Francisco como esse tem que lutar pela liberdade do rio, pela revitalização do rio.

Que grandes projetos são esses? Que São Francisco é esse que os pescadores tanto sonham?



Hoje é um São Francisco prisioneiro, está preso pela barragem de Sobradinho, só soltam água quando querem. Basta dizer a você que hoje é dia 27 de fevereiro, e amanhã está terminando período de defeso. Foi até bom você chegar, pois a partir de amanhã os pescadores estão livre para pescar o que quiser. Mas cadê a cheia? Não é brincadeira não, fizeram Sobradinho e não cuidaram. Primeiro eles deviam fazer o reflorestamento e proibir o desmatamento das margens, que desapareceram.


Então o que foi que aconteceu. Como essas margens desapareceram?

No momento em que tiraram as matas, a chuva quando bate vem com toda força, e quando bate no solo carrega areia para o rio e aí vem a assoreamento. Quando tinha mata, a chuva batia na árvore, em outra árvore e batia num tapete, que era grama, e só carregava folha, grilo e minhoca para o rio, e servia de alimento. E aí parou. Acabou a pesca, acabaram as embarcações. E se não tiver cheia esse ano você vai ver uma história mais triste. Basta dizer que os caras estão pegando caranguejo guaimum dentro da barragem de Xingó. E a piranha está dando um chega nos turistas dentro de Xingó. Já mordeu turista dentro de Xingó. Um companheiro de Delmiro me disse que tem uma prainha lá em Paulo Afonso, que turistas toma banham, que queriam acabar com a pesca artesanal deles lá. Agora as piranhas, nossas companheiras estão dando lição. A pìranha hoje está crescendo é mais a pìranha de terra.


Existe a possibilidade de reverter e a cheia chegar. A Chesf não poderia colaborar e abrir as comportas e soltar o volume de água necessário?

Colaborava. Mas na verdade não vai fazer isso, porque tem muita irrigação lá no alto sertão. Não dá mais para agente se enganar. Não teve cheia, não teve multiplicação de peixe, não teve piracema. De outubro para cá o rio não aumentou um palmo de água. Teve duas procissões de Bom Jesus dos Navegantes em Penedo e Neópolis, que os barcos tiveram que voltar pois não tinha passagem de água. É triste a situação. E nós não podemos elogiar porque tem energia, mas energia tem que ter! Ou de uma forma ou de outra, Mas não podemos cortar as outras energias. A energia do pescador é o peixe. A energia do trabalhador da margem são as lagoas marginais. Sem cheias elas não enchem. Como território, as margens deveriam estar na mão do povo ribeirinho para mudar a história. Plantar o arroz ou outro tipo de legume. Mas o que acontece. Estão plantando é cana.


Então as lagoas marginais se transformaram em plantação de cana-de-açúcar no Baixo São Francisco?


Estão derrubando as ilhas e plantando cana. No lado de Sergipe o projeto Platô derrubou as árvores e estão plantando cana na beira da lagoa. O PAC está acelerando para o fim da vida da agente. Porque nós vamos pagar esse preço. Essas árvores e esses passarinhos são nossos irmãos. São criaturas criadas por Deus para ajudar a gente a viver. A gente deixa que o diabo tome conta. O diabo são os grandes projetos na mão de poderosos que não tem consciência de respeitar a dignidade humana. E estou indignado, pois é onde tiro meu sustento. Criei nove filhos, para arranjar o que comer não precisa ir longe, bastava que tivesse área para cavar minhoca com um enxadeco, e pescar Surubim no rio. Hoje não tem mais. O Surubim, eu pegava de até quarenta quilos.



Hoje não se pesca mais surubim no rio? Como está a realidade do pescador ribeirinho?

Não teve Piracema, um pescador hoje bota 150 covos para pegar um quilo e um quilo e meio de camarão. Com 24 covos já cheguei a tirar 20 quilos de camarão. E não é história de pescador. Está vendo essa camaroa aqui (mostra uma vasilha com poucos camarões), ele está esperando a cheia para desovar. Está dizendo: Não faça isso não, eu quero produzir! Cadê o marreco. A quantidade de marreco que você via aqui no rio, faziam a maior festa. Eu tirava foto da nuvem de marreco passando ai na beira. Tiraram nosso adubo orgânico e colocaram adubo químico para dar duas safras, e aí veio a mortandade de marreco, do paturi, da jia, do calango. Era a coisa mais linda do mundo. Há 25 anos atrás o nosso rio era assim: Passarinhos cantavam alegres e não tinha veneno aqui, também não tinha barragem, era bom demais viver aqui. Tem um ditado antigo do poeta pescador que dizia:

“Quando o canafisteu floresce é sinal que o rio repontou/ por isso nascia a alegria para todo morador/ no começo de outubro o rio começa altear/ com suas águas barrentas que é o adubo natural/ produzindo camarões e peixes para o pescador pescar/ enchendo as grandes várzeas era lindo se apreciar/ cupim, formiga, grilos e ratos nas águas começam a boiar/ tornando-se alimento para os peixes engordar/ nesse grande equilíbrio, quem ganhava era população/ tanto nos peixes e nas árvores, como de nós cidadão/ porque não precisava adubo para fazer plantação/ covo para pegar peixe também para pegar camarão/ outros faziam rede com grande satisfação, porque eles tinham certeza de ir buscar o pão/ e hoje a coisa mudou, do melhor para o ruim, quem são os culpados disso já deu para refletir/ quando por causa do medo deixaram acontecer/ fecharam quase todas as várzeas, barragem foi por demais, acabou a produção dos peixes e já se foi os animais/ agrotóxico mata os passarinhos, saúde não existe mais/ e o rio que era rio hoje está para morrer/ clamando pelo nosso amor pedindo para viver/ depois desse nosso encontro o que vamos fazer, lutar para por em prática essa grande peregrinação/ desse valoroso amigo que nos dá essa lição, quem zela pelo Velho Chico tem Jesus no coração.


Foi esse o poema que o senhor leu no encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva?

Ele me pediu para eu recitar um poema e eu recitei um poema no Palácio do Planalto. Os pescadores do Brasil lutando por libertação, e eis um trecho dele. “Se o presidente Lula conhecesse o São Francisco, ele parava de fazer transposição, veria o rio poluído e todo assoreado pedindo revitalização, o drama do rio é doloroso, tenha cuidado senhor seu presidente, vai transpor água com o rio tão doente”





2010/01/10

Pedro, o rei do sabão: Um alagoano nota 10










Alagoano Nota 10


Ex-pedreiro supera pobreza com reciclagem de óleo e produção de sabão caseiro

Pedro Felipe foi notícia internacional por sua capacidade empreendedora de transformar produtos tóxicos em tabletes de sabão feitos no quintal de sua casa

Mário Lima
Paulo Rios - Fotos


Ele é considerado o rei do sabão caseiro na região do Benedito Bentes, e foi destaque na imprensa nacional e internacional pela sua incrível capacidade empreendedora. Em uma casa simples, no Jardim América, periferia de Maceió, Pedro Felipe dos Santos Neto, 32 anos, e sua mulher Dayse Maria da Silva, 36 anos, mantém desde 2001 uma linha de montagem de sabão, obtido através da reciclagem de óleo usado. O Sabão América hoje tem patente registrada e começa a entrar na era do código de barras. Mas o começo não foi nada fácil.

Conheci Pedro em 2008, quando fiz uma reportagem com ele para o jornal Gazeta de Alagoas, com foco no empreendedorismo e pequenos negócios, em um cenário onde Alagoas passava por um “boom” no consumo popular. A matéria teve boa repercussão e chamou a atenção do correspondente da revista semanal britânica The Economist (com tiragem de mais um milhão de exemplares em todo o mundo). O editor-chefe da revista para o Brasil, jornalista John Prideaux, esteve nesse mesmo ano em Maceió, quando escolheu Pedro para ser personagem de sua matéria.

John conversou com pequenos empreendedores em bairros populosos da periferia de Maceió e entrevistou representantes do Governo e da sociedade civil, para criar um diagnóstico sobre a importância desse crescimento na chamada base da pirâmide, impulsionado por repasses do Estado e da União, que garantem a sustentação mínima de consumo (alimentação, vestuário, artigos de limpeza e de construção) e o microcrédito para alavancar os negócios.


A repercussão foi tão grande que Pedro Felipe se transformou em um exemplo de pequeno empreendedor no Brasil e começou sua “carreira” de conferencista. Sua última palestra foi em Garanhuns (PE), em outubro, durante a inauguração de uma fábrica de sabão caseiro, com a presença do próprio prefeito da cidade.

“Os organizadores me acharam pela internet, na matéria que foi publicada em Londres. A gente era mais importante que o prefeito, e no final ainda ganhei de presente uma máquina de corte e modelagem de sabão, no valor de R$ 3,5 mil”, conta Pedro.

O sucesso foi tão grande que os coordenadores do curso de Economia da Universidade Estadual de Garanhuns convidaram Pedro para fazer outra palestra sobre microcrédito e pequenos negócios. “Afinal, eu tinha experiência comprovada de como controlar o dinheiro, pois comecei meu negócio com apenas vinte reais. Eles ficaram admirados”, conta.

Mas quando conheci o casal, Pedro e Dayse trabalhavam em um quarto abafado, com todo processo feito à mão, em uma tosca mesa cheia de linhas e tábuas, para fazer o corte das barras. Sua produção ainda era pequena, e a entrega era feita de bicicleta nos mercadinhos do bairro. Tudo só foi possível quando Pedro pediu os primeiros empréstimos (R$ 80, R$ 300 e R$ 800), no Banco do Cidadão. Ao todo foram oito empréstimos, e ele se prepara para pagar o último.

Pedro era pedreiro da construção civil, quando recebeu uma dica de uma amiga paulista de como transformar óleo em sabão. Daí ele não parou mais. Com um investimento inicial de R$ 20, fruto dos bolos que Dayse vendia no canteiro de obras onde o marido trabalhava, o casal comprou uma quantidade de couro de galinha, que era testado e queimado no próprio quintal, até virar sabão.

“Conseguimos vender uma caixa para o mercadinho, botamos uma placa na porta — ‘vende-se sabão caseiro a R$ 0,25’, o melhor preço da região, e aí começaram a aparecer os primeiros clientes”, lembra Pedro, feliz, ao lado de Dayse e da filhas Paula Débora, 6; Daysiane, 4, e Pauline, a caçula, de 2 anos, que cresceu exatamente no tempo da virada na vida de Pedro.


Exemplo de empreendedorismo chega a Londres através de matéria do The Economist

Em 2008, os negócios de Pedro sofreram um abalo, com a chegada de uma empresa de biodiesel de Aracaju, que começou a comprar o óleo usado de restaurantes e hotéis de Maceió.

“Perdi meus fornecedores, já que eu pegava de graça nesses hotéis e restaurantes, pois ajudava a reciclar e colaborava para um meio ambiente mais sadio. Mas parece que a empresa não deu certo. Hoje o óleo é quem corre atrás de mim, e como disse a reportagem, virei mesmo o rei do sabão”, diz Pedro Felipe, que estoca em tonéis mais de mil litros de óleo, matéria prima bastante para fabricar de 200 a 250 caixas de sabão, contendo 50 unidades.



Com isso, ele dobrou sua produção, e hoje o pessoal é quem liga para ele buscar o óleo. Em 2008, ele tinha uma produção média de 300 caixas (com 50 tabletes) por mês, e em 2009 seu volume de fabricação chegou a 600 caixas por mês. E se antes ele entregava sua produção, de bicicleta, em 15 mercadinhos da região do Benedito Bentes, Pedro hoje tem um Volkswagen modelo 79, com um bagageiro de ferro fundido na capota, onde vende sua produção para 40 mercadinhos e armazéns de toda a região no entorno do Benedito Bentes.

Pedro continua a fabricar sabão no quintal de sua casa, mas agora já emprega três pessoas e pensa em expandir e diversificar seus produtos.

“Já comecei a fazer novas pesquisas e testes para fabricar sabão em pó e sabonete líquido para agregar mais valor e mais renda, e com isso poder contratar mais gente e aumentar a minha produção. Sou suspeito para falar, mas muita gente diz que o meu sabão é melhor que o industrializado. O segredo, além da fórmula, é o amor e o carinho com que fabricamos nosso sabão”, finaliza Pedro, o ex-pedreiro que driblou a pobreza e se transformou em microempresário, patrão e palestrante, quando o assunto é sucesso nos pequenos negócios